Depois de um 2008 com uma final atípica, entre dois times de pouca tradição no torneio, a poesia retornou à Copa Libertadores da América. O campeão, um time Copero, de histórias inacreditáveis, aguerrido, lutador, que conquistou a América e o Mundo contra todas as previsões.
Com “La Bruja” Verón, nasce um gigante do futebol.
Em 1967 um “rebelde” Estudiantes quebrou a hegemonia dos chamados “cinco grandes” da Argentina (Boca Juniros, River Plate, San Lorenzo, Racing Club e Independiente), que desde 1931 e até então monopolizavam os títulos nacionais de primeira divisão.

O jogo de semifinais desse torneio, o primeiro Campeonato Metropolitano, é muito lembrado. O Estudiantes perdia por 3 x 1 para o Platense no primeiro tempo, e ficou com um jogador a menos logo aos 30 minutos, não por expulsão, mas por lesão (nessa época não eram permitidas substituições). Ainda assim, conseguiu virar a partida na segunda etapa, vencendo por 4 x 3. Juán Ramón Verón marcou o segundo gol para o Estudiantes, que apenas nove minutos depois estava à frente no placar de forma inacreditável, e se encaminhava para a sua primeira conquista importante. No Campeonato Nacional desse mesmo ano foi o segundo colocado, apenas dois pontos atrás do Independiente.
Começa a história Copera.
No ano seguinte, o León conquistou a Copa Libertadores, e logo seria o primeiro clube da história a vencer o torneio continental por três anos consecutivos, em 1968, 1969 e 1970, com Juan Ramón Verón como um dos destaques do time. Também foi o primeiro clube do futebol mundial a disputar três vezes seguidas a Copa Intercontinental. Em 71 foi vice-campeão da Libertadores, se tornando o primeiro clube a disputar quatro finais consecutivas do máximo torneio sul-americano de clubes (veja a lista completa dos times que foram campeões e vices da Copa Libertadores).
Em 68, o Estudiantes também conquistou a Copa Intercontinental, contrário ao que o mundo todo imaginavam que ia acontecer, pois o rival era nada menos que o Manchester United. Desacreditados, mesmo após vencer os ingleses por 1 x 0 na Bombonera, os argentinos aguentaram um empate de 1 x 1 no mítico estádio Old Trafford. Juan Ramón Verón marcou o primeiro gol da partida, calando os ingleses, que estavam convencidos de que venceriam. Morgan empatou para o Manchester United, mas os argentinos aguentaram o resultado até o final. O Estudiantes é o único time não-inglês a comemorar um título no Old Trafford, e foi um título mundial.
Confira um vídeo dessa grande conquista.
Com “La Brujita” Verón, renasce um gigante do futebol.
Devo dizer que sou simpatizante do clube argentino desde 2006, quando o Pincha venceu o campeonato Apertura argentino. Pela primeira vez na história do futebol argentino (que eu comecei a acompanhar desde que vim morar em Montevidéu), um campeonato curto precisou de um jogo de desempate para decidir o campeão, pois o Estudiantes havia igualado os 44 pontos do temível Boca Juniors (time que eu já destesteva). Na decisão, o Pincha ficou em desvantagem logo aos 4 minutos de jogo (gol de Martin Palermo), mas conseguiu virar o placar. Depois de 23 anos de espera, o Estudiantes conquistava um título nacional, com um Verón em campo. Ele, Juan Sebastián Verón, acabava de voltar para o seu clube do coração, depois de ganhar vários títulos na Itália com o Inter de Milão.
Crédito da foto: N i c o_.
Na Libertadores 2008 o Estudiantes venceu seu grupo, mas foi eliminado nas oitavas-de-final pela LDU, que depois seria a campeã do torneio. Poucos mêses depois, chegou até a final da Copa Sul-americana. O pecado do León foi perder em casa, por 1 x 0, em uma má partida. Porém, a equipe não se deu por vencida. Foi à Porto Alegre e venceu o Inter pelo mesmo placar no tempo regulamentar. O esforço do time argentino foi imenso, mas sofreram um gol na prorrogação, e terminaram perdendo o título.
Copa Libertadores 2009.
O Estudiantes caiu no mesmo grupo que o Cruzeiro, que depois seria seu rival na final. O primeiro jogo da fase de grupos terminou com vitória de 3 x 0 do Cruzeiro. Em La Plata, foi goleada de 4 x 0 do Estudiantes. Depois de passar por Libertad nas oitavas-de-final, Defensor nas quartas e Nacional nas semifinais, o Estudiantes se encontrou com o Cruzeiro novamente.
Crédito da foto: Esportepress.
A conquista foi merecida. Em La Plata o Estudiantes foi melhor, embora o Cruzeiro tenha dominado o último tramo do jogo. A Raposa contou com uma noite inspirada do goleiro Fábio Henrique para não sair derrotado. A festa que a torcida do Pincha fez foi impressioante, a maior e mais bela do torneio. Pena que a torcida cruzeirense não fez nada parecido.
O empate sem gols não foi lamentado pelos argentinos, que acreditavam em um 50% de chances para os dois times no jogo de volta, mesmo sendo no Mineirão. Já os cruzeirenses cantaram vitória antes do tempo, falaram em Barcelona e Mundial, esquecendo, e até menosprezando, o rival que ainda não tinham vencido.
O Cruzeiro certamente não esperava um jogo tão difícil em Belo Horizonte. O Estudiantes jogou de igual a igual, teve calma, concentração, frieza depois de sofrer o gol, e conseguiu reverter um placar desfavorável. Verón foi a figura do jogo. O empate nasceu de seus pés, quando fez um incrível lançamento para Cellay, que cruzou na medida para Gastón Fernández empurrar pro fundo do gol. O Cruzeiro não teve uma boa noite, e ao contrário do rival, se abalou e ficou muito nervoso após o gol sofrido.
Aos 27′ Boselli, goleador da Copa, marcou o 2 x 1, de cabeça, lutando com dois rivais no meio da área para chegar e cabecear a bola como desse. Adivinha quem fez o cobrança de escanteio? Verón. Depois disso o Estudiantes só teve que segurar o resultado. O Cruzeiro tentou, mas Andújar não teve que fazer uma só defesa difícil em todo o jogo. Na verdade, ele não foi exigido em nenhum dos dois jogos da final. O Estudiantes nunca foi menos que o Cruzeiro, embora os brasileiros acreditassem em um favoritismo pouco fundamentado. O Cruzeiro lutou, mas não foi melhor que o seu rival.
Assista os gols e os melhores momentos de Cruzeiro 1 x 2 Estudiantes pela final da Copa Libertadores.
Quis o destino que depois de 39 anos outro Verón, o filho do ídol da década de 70, fosse figura do Estudiantes, e levasse o León ao topo da América, e de novo ao Mundial. A Copa Libertadores parece ter alma e vontade própria. Prefere os times aguerridos, lutadores, os que dão sangue e suor pela taça, os que tem história e tradição nela e que querem honrá-la. Não se ganha Libertadores com técnica, se ganha com bravura, com esforço, trabalho de equipe, e o Estudiantes teve tudo isso. Um justo e dingo campeão.


